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Joaquim Cruz questiona sobre o real legado dos megaeventos
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José Cruz

 

Por Joaquim Cruz

Ouro nas Olimpíadas de Los Angeles, 1984; prata em Seul, 1988, nos 800m

joaquim_cruz

Dizem que quando vivemos num ambiente ruim por muito tempo ficamos míopes e perdemos o sentido das coisas corretas. Será que nos adaptamos ao Brasil “pequeno” e de dificuldades que os políticos criaram para nós?

O setor de saúde não é bom, desde quando eu brincava nas ruas de Taguatinga, em Brasília. Em 1981 perdi o meu pai por falta de atendimento no pronto socorro da cidade. No ano passado, o meu irmão mais velho faleceu. Ele também não recebeu atendimento adequado em um hospital, carente de profissionais e equipamentos necessários para tentar salvar vidas. Hoje, doentes morrem na porta de prontos-socorros e isso parece não nos assustar mais, pois se tornou rotina.

Eu não lembro se a educação na minha época de estudante era boa ou ruim. Mas, pelo menos, tínhamos o esporte no segundo período para incentivar a juventude e isso fazia a diferença. Hoje, nossos adolescentes crescem da noite para o dia, e a juventude torna-se adulta fora de época. Crianças viram mães muito cedo, assumem responsabilidades de formar famílias e se afastam dos estudos. As dificuldades se multiplicam, chegam os conflitos e a família se desfaz. Com certeza a educação e o esporte poderiam ter feito a grande diferença nas vidas de tantas garotas que assumem compromissos maternos precocemente.

O esporte na escola, que por muito tempo abrigou os saudosos Jogos Escolares, piorou nas últimas décadas. O Ministério do Esporte tentou amenizar a falta de atividade física nas escolas com o programa Segundo Tempo, mas sem a participação do Ministério da Educação. O fracasso foi inevitável.

Benefícios

Estou cansado de ouvir os nossos políticos falarem sobre “os benefícios do esporte…”, “o legado do esporte” na forma de futuro próximo. “O Pan deixará legados…”; “A Copa do Mundo deixará um legado…”; “O principal legado dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016 será…” e por aí segue.

Mas, esta semana, o nosso ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que a Copa do Mundo foi responsável pela queda da produção industrial, em julho. O brasileiro trabalhou menos. Devido a isso, o governo arrecadou menos impostos. Para a economia o legado foi esse, menos dinheiro nos cofres públicos. E imagino que escolas e hospitais já sofrem o reflexo disso. Mas fizemos a “Copa das Copas…”

A cultura do futebol é muito forte para contestá-lo, mas só quando a economia nos afeta é que caímos na real e observamos que o tal “legado” não é tão grande quanto nos venderam. Qual foi o grande projeto de esporte do governo do município do Rio ou do Estado do Rio de Janeiro para estudantes e população após os Jogos Pan e Parapamamericanos? Agora, tentam nos vender o “legado olímpico e paralímpico'', sem que tivéssemos sentido o efeito da primeira promessa, há sete anos!

No meu entender, o legado dos Jogos de 2016 começou bem antes de 2 de outubro de 2009, quando o Rio ganhou o direito de sediar a Olimpíada e Paralimpíada. Porém, já se passaram cinco anos e estamos debatendo sobre os legados pós Jogos, sem termos nos beneficiado dos benefícios que deveríamos ter tido, como os do Pan e Parapan.

Legado não deveria ser somente o resultado final de um evento ou ação, mas todo o processo coletivo de mudanças, com a inclusão da escola e da universidade brasileiras nesse processo. Planejamento, definição de prioridades, fixação de metas também são legados bem antes dos Jogos, durante e depois. Mas ainda estamos debatendo sobre as mudanças no esporte nacional que deveriam ter acontecidos há cinco anos. Se não existe o legado do “antes e durante” não devemos nos iludir com um que sonhamos após a Copa do Mundo, Olimpíada ou Paralimpíada.

Potência Brasil

Já tivemos os Jogos Pan e Parapan Americanos, em 2007, a Copa das Confederações, os Jogos Mundiais Militares, a Copa do Mundo… E agora, nessa pausa de megacompetições, nossos candidatos à eleição de outubro não tocam nesses assuntos, “educação, esporte, saúde”. Será que o eleitor não quer discutir também sobre isso? Será que, desiludidos das promessas, já se adaptou a um Brasil “menor”, de pouca qualidade de vida para muitos e de desesperança para tantos, a juventude, principalmente?

Se é assim, lamento muito, pois o mundo vê o meu Brasil como uma grande potência! E é, com certeza. Mas quem dará rumos a essa potência sem garantir prioridade à educação integral dos jovens? Façam isso, senhores políticos, e o legado virá ao natural.

Nota do blogueiro: Joaquim Cruz mantém em Brasília um Instituto que leva o seu nome, dirigido por Ricardo Vidal, promovendo projetos de atletismo como o do Clube dos DescalS.O.S e o programa Rumo ao Pódio Olímpico.


Patrocinadores estão assustados com a falta de transparência no esporte
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José Cruz

A Atletas pelo Brasil, o Lide Esporte, o Instituto Ethos e empresas que investem no esporte de alto rendimento querem “ética e transparência” na gestão dos recursos que investidos.

dinheiro  Um comunicado assinado por poderosos patrocinadores (Banco do Brasil, Nestlé, Voks, Natura etc) demonstra preocupação “na associação de suas marcas com uma melhor gestão e transparência, na utilização dos recursos de patrocínio e têm grande responsabilidade com os rumos e os resultados do país no esporte de alto rendimento.”

Rumos

Então, se essa preocupação parte de quem financia o esporte é porque a situação é grave. E não é de hoje. E isso acontece, também, pela falta de rumos, apesar de termos um ministério específico, mas, igualmente, suspeito de corrupção, falta de definições e prioridades para o dinheiro que administra.

Porque, enquanto o Ministério do Esporte não analisar com rigor as prestações de contas do dinheiro que libera, passa a ser cúmplice das falcatruas, descobertas ao acaso, como ocorreu com a Confederação Brasileira de Tênis, a de Hipismo etc.

Quem é quem?

A união de forças como essa surgida em São Paulo é oportuna. Mas estamos atrasadíssimos em todas as frentes. Faltam definir competências a todos os entes do esporte. Nos últimos anos, há uma evidente concorrência do Ministério do Esporte com o Comitê Olímpico. Isso está claro na farta liberação dos recursos em Brasília, enquanto o COB tem um projeto com objetivos e visão integrada.

Na prática, são dois órgãos – um técnico-privado e outro público-político – disputando os mesmos cliente$, já turbinado$ por outras fontes, públicas, principalmente. Quem discute sobre essa desordem, que leva ao desperdício e, por isso, incentiva a corrupção e injustiças que, agora, os patrocinadores agem para estancar?

Quem discute, também, sobre a ineficiência das federações, muitas falidas, desacreditadas e que servem apenas para dar sustentação aos poderosos das confederações, onde se concentram os valorizado recursos públicos?

Todas as ações para melhorar são bem-vindas, mas o ponto de partida é discutir sobre a estrutura que aí está, falida e suspeita. E, por isso, ameaçando expor na bagunça esportiva marcas poderosas de já assustados patrocinadores.


Lamentável, revoltante e triste
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José Cruz

É no país da “Copa das Copas”, do meu estado, o Rio Grande do Sul, e do estádio do “Imortal Tricolor” que vem a triste demonstração de racismo, no jogo em que o Santos derrotou o Grêmio, ontem, por 2 x 0.  Logo no Grêmio, que no ano passado fez bela campanha contra o racismo. Interdição da Arena, no mínimo, para ver se o torcedor aprende a respeitar seus semelhantes.

Imagens que entristecem: torcedoras, inclusive, agredindo Aranha, o goleiro do Santos

aranhas

Mais:

http://esporte.uol.com.br/futebol/campeonatos/copa-do-brasil/ultimas-noticias/2014/08/29/casos-repetidos-escancaram-problemas-de-racismo-em-estadios-do-rs.htm

 

http://espn.uol.com.br/video/436036_torcedores-do-gremio-fazem-criticas-racistas-a-aranha-goleiro-do-santos


O debate vazio do esporte na campanha eleitoral
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José Cruz

Procurei conhecer as propostas dos candidatos presidenciais para o assunto “esporte”. Não há novidades, mas uma cópia atualizada de campanhas passadas.

Apesar de o Brasil estar recebendo os maiores eventos esportivos do mundo, não há um projeto integrado para as pastas da saúde, educação, esporte, meio ambiente, indústria e comércio, no mínimo. Nada!

FOTO CORRIDANão sabemos para onde vamos, como numa corrida sem compromisso. Isso é sinal de que, independentemente do candidato eleito, continuaremos com um ministério partidário, de atuação e objetivos políticos, antes de tudo.

A indústria do esporte é uma das que mais contribui para a formação do PIB nacional, devido, também, ao crescente interesse dos brasileiros pela prática de atividade física. E isso foi motivado, em parte, pela realização dos grandes eventos esportivos: Pan e Parapan 2007, Jogos Mundiais Militares, Copa das Confederações, Copa do Mundo de Futebol, Olimpíada, Paraolímpiada e Universíade. A corrupção e superfaturamento para preparar essas festas é outra história.

No entanto, onde entra a escola e a universidade na preparação desses eventos? Qual a participação efetiva de longo prazo da área acadêmica para que o Brasil seja, também, esportivamente respeitável? O Ministério do Esporte continuará sendo apenas um órgão repassador de verbas públicas? O Conselho Nacional do Esporte continuará cúmplice da omissão do governo em várias frentes do setor?

Nos estados

Da mesma forma, pesquisei algumas propostas dos governos estaduais, onde secretarias de esportes usam suas estruturas para camuflar orçamentos e transformar cargos de confiança em cabides de empregos, privilegiado espaço para companheiros desocupados. Nenhuma novidade. Mas somos um país olímpico.

Enfim, a 38 dias das eleições, acusações e promessas de eleições anteriores se repetem, e a novidade da campanha é uma trágica realidade: um jatinho sem dono.

E eu aqui querendo debater sobre os rumos do esporte…


Judô teve orçamento de R$ 47 milhões, em 2013
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José Cruz

Um total de R$ 47 milhões turbinou a preparação da equipe brasileira de judô, que disputa o Campeonato Mundial, na Rússia. O orçamento da CBJ (Confederação Brasileira de Judô) recebeu investimentos públicos e privados.  erikaO evento está no terceiro dia, e o Brasil já conquistou bronze, com a meio-leve Erika Miranda (foto), judoca do Minas Tênis Clube.

O principal aporte financeiro no judô em 2013 foi de “patrocinadores”, com R$ 28 milhões, conforme o balanço financeiro da CBJ. Esses valores também financiam as seleções das categorias de base.

FONTE 2013

R$ Milhões

Patrocinadores

28,3

Lei Incentivo ao Esporte

10,9

Lei Piva

4,3

Min Esporte – Convênios

3,7

TOTAL        47,2

 

Considerada “modelo” de gestão – com reservas, depois do escândalo na Confederação de Vôlei – a CBJ tem na Sadia o seu principal patrocinador, categoria “master”. O valor oficial do patrocínio não consta no balanço. Bradesco, através da Lei de Incentivo, é outro patrocinador, mas na categoria “oficial”. Scania e Cielo constam como “parceiros oficiais”.

 Enquanto isso…

Como nas demais modalidades esportivas, as confederações estão bem supridas de verbas para a preparação das seleções.

Porém, as federações estaduais, que dão sustentação institucional às confederações, estão na miséria e, muitas, abandonadas, literalmente. Mas é no trabalho das federações junto aos clubes e associações que se identificam talentos e se forma a base de qualquer modalidade. Sem exageros, assim como a poderosa CBF as confederações estão muito bem, mas suas filiadas muito mal.

 Realidade

O presidente da Federação Metropolitana de Judô (DF), Luiz Gonzaga Filho, revelou que há uma perda anual muito grande de talentos, por falta de dinheiro.

Competidores das categorias menores que se classificam para eventos nacionais ficam sem viajar porque não podem comprar passagem nem pagar hospedagem. Frustrados, acabam se afastando do esporte.

“Teremos um Campeonato Brasileiro sub-23, em Natal, mas recebo ligações dos judocas classificados dizendo para colocar outro no seu lugar, pois não conseguiram dinheiro para as despesas”, contou Gonzaga Filho.

A CBJ, segundo Gonzaga, ajuda com “bons tatames, com computadores”. Mas o problema maior são as despesas com as seleções para os campeonatos brasileiros.

Este problema é grave e antigo, porém sem uma só reação do Ministério do Esporte.

A realidade demonstra que o modelo está falido e, mesmo assim, o governo continua suprindo, com fartura de dinheiro, a elite de todas as modalidades, em detrimento de quem trabalha na iniciação. O desperdício de talentos é real.


Centenário Palmeiras, Ronaldinho e a dívida fiscal
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José Cruz

palmeiras

A diretoria do Palmeiras trabalha para anunciar hoje, data do centenário do clube, a contratação de Ronaldinho Gaúcho.

O salário exigido pelo ex-melhor do mundo é de R$ 600 mil e outras vantagens. A “vaquinha” para esse investimento é iniciativa de palmeirenses históricos.

Independentemente de onde virá a grana, essa contratação é negociada enquanto cartolas, de joelhos, pedem perdão de suas dívidas fiscais ao governo federal.

Como se sabe, tramita no Congresso Nacional um projeto de lei com privilégios esdrúxulos para que os devedores renegociem R$ 4 bilhões de calotes ao INSS e à Receita Federal.

Em dezembro, o Palmeiras devia R$ 40 milhões à Timemania, loteria criada pelo ex-ministro Agnelo Queiroz “para salvar os clubes…” Pior: além da Timemania, a dívida do centenário clube paulista era de R$ 274 milhões, em 2013, segundo a BDO Auditores Independentes.

Muito estranho esse duplo comportamento dos cartolas, que choram suas misérias diante do governo federal, enquanto escancaram negócios milionários na contratação de atletas. Reforçam, com isso, as suspeitas de que o futebol encobre mesmo lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, evasão de divisas, negócios no escuro etc.


Atletas, os inocentes úteis à corrupção no esporte
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José Cruz

jackie

 

 

  “Sobre as dificuldades (na Confederação de Vôlei) relativas ao que saiu na imprensa, nós não sabemos realmente o que aconteceu. Então, nem posso lhe falar muito concretamente”.

(Jaqueline, estrela do vôlei, ao jornal Folha de S.Paulo)

 

 

No vôlei, uma vitória de rotina, com a Seleção Brasileira feminina chegando ao 10º título do Grand Prix.  No tênis, duas conquistas raras, ambas nos Jogos Olímpicos da Juventude, na China: prata em simples, com Orlando Luz, que voltou ao pódio em duplas para receber a medalha de ouro, ao lado de Marcelo Zormann.

Enquanto isso

Essas conquistas – comum no vôlei, inédita no tênis – ajudam a ofuscar, temporariamente, as denúncias de corrupção nas Confederações dessas modalidades.

No vôlei, o vice-presidente da Confederação, Neuri Barbieri, abriu o jogo na semana passada para mostrar “transparência”. Ficou a ideia de que o assunto se esgotava. Mas não. As denúncias são graves, houve beneficiados na própria CBV e familiares do ex-presidente Ary Graça, envolvendo dinheiro público, do Banco do Brasil, principalmente. E quem continua no comando da entidade são personagens históricos da confederação. Isenção para dar novos rumos?

No tênis, o presidente Jorge Rosa é ator de um processo do Ministério Público de São Paulo, cuja investigação policial está no fim. Brevemente teremos novidades sobre esse gestor, que já fraudou prestação de contas no Ministério do Esporte, como aqui demonstrei com provas oficiais.

Poderia evoluir para outras confederações, mas todas as denúncias nos levariam a um ponto comum: a longevidade dos presidentes em seus cargos o que provoca gestão viciada.

Nesse contexto, leiam o que disse a estrela Jaqueline, do vôlei, hoje, na Folha de S.Paulo, ao ser indagada sobre as denúncias de corrupção na CBV:

 “Sobre as dificuldades relativas ao que saiu na imprensa nós não sabemos realmente o que aconteceu. Então, nem posso lhe falar muito concretamente”.

A declaração vem de quem dá sustentação ao esporte, mas ignora o viciado sistema, sustentado por verbas do governo federal. Isso também facilita a corrupção, agora ofuscada pelos pódios de silenciosos e obedientes atletas.


Copa provoca queda na arrecadação e compromete programas sociais do governo
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José Cruz

Com forte apelo comercial, os megaeventos repercutem, também, no desempenho da economia. Para mais ou para menos. Com a Copa do Mundo, o governo fez projeções para mais. Porém, iludiu-se, porque os números mostram que perdemos.

Depois da euforia sobre a “Copa das Copas”, os jornais revelam que o baixo recolhimento de tributos em julho foi o pior resultado para este mês, desde 2010. E isso aconteceu porque tivemos menos dias úteis em julho. Caiu a produção industrial e, consequentemente, a arrecadação.

Com esse desempenho para baixo falta dinheiro até para os programa Bolsa Família e Seguro Desemprego, que não podem falhar neste momento de campanha eleitoral.  Documentos oficiais mostram que, desde julho, a Caixa Econômica Federal reclama que os repasses do     governo são insuficientes para atender aos programas sociais. bolsa

 Resultado:

quem assume a diferença é a Caixa, mesmo contrariando normas do Banco Central, como mostra reportagem da Contas Abertas. Veja aqui

 

Enquanto isso…

… o secretário de Saúde do Distrito Federal, Elias Miziara, foi exonerado pelo governador Agnelo. Miziara declarou na quinta-feira que “a população tem o mau hábito de procurar hospitais à noite”, provocando filas enormes nos hospitais.

 

Apesar da esdrúxula declaração do ex-secretário, a verdade é que os problemas na área da saúde em Brasília e no Brasil se acumulam há décadas. E no Distrito Federal, em particular, a omissão de agora contrasta com a construção de um estádio de futebol de quase R$ 2 bilhões. A saúde ficou em segundo plano, porque o dinheiro foi para o concreto de 72 mil lugares.

Dois meses depois da festa da “Copa das Copas” o torcedor cai na real e o governo tropeça no rombo de suas contas. Portanto, o discurso eufórico de que fizemos o melhor evento de todos os tempos foi do tipo “para inglês ver”.


Botafogo faturou apenas um quarto da renda no jogo com Fluminense
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José Cruz

Mandante no clássico com o Fluminense, o Botafogo pagou R$ 1.667.495,00 para jogar em Brasília, no domingo passado, pelo Campeonato Brasileiro e ficou com apenas um quarto da renda.

Resumo:

Renda bruta

   R$ 2.252.700,00
Despesas   R$ 1.667.495,00
Botafogo   R$    585.205,00
 botafogo

 

A questão é: o Botafogo teria essa renda líquida se tivesse jogado no Rio de Janeiro? Compensa jogar em Brasília?

Despesas

Algumas despesas são “fixas”, como as taxas das Federações Carioca (10% – aos times que jogam fora do Rio) e Brasiliense (5%).

Outras estão no contrato: R$ 455.382,34 para a empresa “Bilheteria Digital”, que bancou o jogo no Distrito Federal.

O aluguel do estádio custou R$ 337.905,00 (15% sobre renda bruta, segundo o Governo do Distrito Federal).

Mas há despesas muito estranhas (conforme o borderô):

CONTAVALOR R$
Despesa Operacional     20.000,00
Despesa Operacional Estádio     57.904,00
Despesa do Jogo       8.000,00
Ingressos Promocionais     74.600,00
Despesa Botafogo FR       3.500,00
Total   164.004,00

 

Perguntei à Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, que elaborou o borderô do jogo, quem foram os beneficiados com os valores acima, mas não obtive resposta.

Estranho
E o que significam os R$ 174.248,00 pagos a título de “Despesas Pré-venda e venda de ingressos”? Quem recebeu esse valor?

Para pensar

O total de impostos pagos nesse mundo de dinheiro foi de apenas R$ 121.451,98. Isso mesmo, da renda bruta de R$ 2.252.700,00,  5,4% foram para imposto

Lembrando que 5% corresponde ao INSS, é de lei. Será que o Botafogo recolheu esse valor, como determina o Decreto 832/93, ou empurrou para a renegociação da dívida fiscal que está em andamento?

Enfim, está aí o resumo do borderô de um clássico do futebol brasileiro, para ser questionado pelo torcedor, nessa época em que se fala em “mudança de gestão clubística'', “transparência'', “seriedade'', “padrão Fifa''….  Temos isso?

Esta mensagem resume uma contestação, mas é preciso aprofundar a investigação sobre cada item revelado para melhor se entender os bastidores de um clássico.

Estou preparando artigo sobre a renda de outros jogos para comparar com este borderô do Botafogo, enquanto espero respostas da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro.

 


CGU investiga crise no vôlei. Ministério do Esporte corta verbas
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José Cruz

A CGU (Controladoria Geral da União) já investiga as denúncias de irregularidades na gestão financeira da CBV (Confederação Brasileira de Vôlei), a partir do relatório de uma auditoria “confidencial e reservada” que apontou, também, favorecimento em negócios com ex-diretores da entidade. É mais uma ação que ajudará passar a limpo a gestão do ex-presidente Ary Graça, desde 2012 presidente da Federação Internacional de Vôlei.

A revelação foi do advogado Neuri Barbieri (foto), vice-presidente da CBV, que responde em nome do presidente Walter Pitombo Laranjeira, de 82 anos, ausente por motivo de saúde.

neuri

Em reunião com jornalistas, hoje, no Rio de Janeiro, Neuri explicou como as denúncias repercutiram na rotina da CBV, inclusive com a possibilidade de rompimento de contrato com o tradicional parceiro, Banco do Brasil. Para dar novos rumos à gestão administrativa e financeira, CBV encomendou novo modelo à Fundação Getúlio Vargas, ao custo de R$ 1,6 milhão. “Não queremos mais correr riscos”, resumiu Neuri. “Estamos aqui para fazer voleibol”, completou o diretor de marketing, Renan Dal Zotto, ex-craque e técnico de vôlei.

Corte em contratos

A situação na Confederação mais premiada dentre as modalidades olímpicas é tão grave que até o Ministério do Esporte cortou verbas para o vôlei. Dos R$ 42 milhões solicitados no ano passado para serem executados este ano foram liberados somente R$ 2,5 milhões, isto é, cerca de 5% do solicitado.

“Esse corte no pedido foi conseqüência da crise? Não sabemos, mas repercutiu no nosso trabalho e planejamento”, disse Neuri Barbieri. Para 2015 foram encaminhados ao Ministério projetos que envolvem R$ 25 milhões, contemplando vários segmentos, como capacitação de treinadores, por exemplo.

Omissão

Mas, afinal, o que levou a CBV, até então modelo de gestão no desporto brasileiro? Foram vários fatores, segundo Neuri. A omissão dos presidentes de federações foi uma delas. “Tínhamos bons resultados das seleções e, por isso, confiávamos na gestão de Ary Graça, que era do estilo centralizador. As federações foram omissas”, afirmou.

Em entrevista acompanhada pelos demais diretores da CBV, Neuri Barbieri lembrou que os contratos que provocaram o escândalo no vôlei, como pagamento de comissão a ex-diretores para intermediar patrocínios, nunca foram apresentados em assembléia. Neuri é presidente licenciado da Feeração Paranaense de Vôlei.

Novidade

A gestão financeira das confederações brasileiras sempre foi um mistério devido à falta de transparência, principalmente a partir de 2003, quando o governo do PT abriu as torneiras para o esporte de alto rendimento, financiando projetos de convênios com o Ministério do Esporte, Lei de Incentivo, patrocínio estatal (BB, Caixa, Correios, Infraero, Eletrobras, Petrobras etc).

Ao ser se conhecer que diretores da CBV se beneficiavam do cargo para faturar em nome de suas empresas, como já foi divulgado, o escândalo ganhou proporções, porque se tratava de má gestão na confederação tida como “modelo”.

Mas surpreende, também, que as questões sejam agora colocadas de forma tão clara, sem meias-palavras, como na entrevista de hoje, em que os prejuízos e perspectivas da modalidade foram colocadas, com detalhes, como contarei em outra mensagem, além da reportagem do companheiro Vinícius Konchinski. Essa transparência que parece surgir coincide com a chegada do jornalista Jandry Vicentin à chefia da assessoria de imprensa da CBV.

Neuri colocou à disposição o relatório de auditoria – “reservado e confidencial” – pedindo que evitassem divulgar dados de seu conteúdo. Mas, numa passada pelo documento, observei que o principal já havia sido divulgado pelo jornalista Lúcio de Castro, da ESPN Brasil.

O que falta

O detalhe é que essa auditoria da CGU se limita à gestão de Ary Graça. E a que veio antes, de Carlos Arthur Nuzman, o idealizador do modelo que até então vigorava? Sem suspeitas, mas com direito a pedir “transparência”, porque falamos de verbas públicas, essa é a investigação histórica que ainda nos falta. Não só no vôlei, mas em todas as confederações, cuja fiscalização é ignorada pelo doador maior, o Ministério do Esporte.