Blog do José Cruz

Revista do Senado faz histórico balanço sobre a Copa 2014
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José Cruz

O mais recente e bem elaborado balanço da Copa do Mundo no Brasil está na revista “Em Discussão!” – do Senado Federal –,  que será lançada na próxima quarta-feira.

Os textos estão distribuídos em 56 páginas e foram produzidos a partir da atuação dos parlamentares na fiscalização e controle dos gastos com a Copa e relatórios do Tribunal de Contas da União, sugerindo a manchete: “Todo mundo de olho no Brasil”.

Acompanhei rapidamente essa edição em dois momentos, quando conversei com os editores João Carlos da Silva Teixeira e Sylvio Guedes: na elaboração da pauta e no envio dos originais para a gráfica. O trabalho tem conteúdo de qualidade e texto crítico, o que transforma a revista num documento histórico sobre esse megaevento no Brasil.

“Atrasos nas obras, reajustes nos preços e cancelamentos principalmente de projetos de mobilidade urbana fizeram com que os brasileiros não se mostrassem tão satisfeitos com a realização do Mundial no país. Essa divisão da população entre a tradicional festa que acontece a cada Copa e a rejeição aos investimentos com o evento ficou clara em junho do ano passado, quando manifestações irromperam em diversas cidades do país, especialmente aquelas que sediaram a Copa das Confederações em 2013”, escreveram os editores, apresentando “Em Discussão!”.

Na quarta-feira publicarei o link para acesso à revista.


Aldo Rebelo e Silvio Torres: censurados e processados
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José Cruz

Na audiência pública da última terça-feira, na Comissão de Esporte da Câmara dos Deputados, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, lembrou ao deputado Silvio Torres (PSDB-SP) que ambos são os únicos parlamentares-autores censurados na imprensa brasileira. Por decisão judicial, eles foram proibidos de publicar o relatório final da CPI da CBF Nike, em 2001.

Pior

“O pior, ministro – disse o deputado Silvio Torres -, é que também estamos sendo processados por Ricardo Teixeira (ex-presidente da CBF), por danos morais. Se perdermos a ação, cada um de nós pagará R$ 50 mil a ele. Espero que o Senhor esteja se defendendo muito bem …”

Memória

Aldo, presidente da CPI da CBF Nike, em 2001, e Silvio Torres, relator, não conseguiram aprovar o relatório final da Comissão, depois de comprovarem atos de corrupção, evasão de divisas, tráfico de menores, enriquecimentos ilícitos, esquemas fraudulentos e criminosos contra o patrimônio público, enfim, uma farra.

Na última sessão da CPI, em dezembro de 2001, o então deputado Eurico Miranda, liderando a bancada da bola, tumultuou o plenário. Gritou, desacatou o presidente da mesa, rasgou cópia do relatório que recebera, enfim. Sem conseguir conter a confusão, Aldo Rebelo e Silvio Torres encerraram a CPI, e o relatório não foi votado. Vitória da bancada da bola.

Mas o documento foi transformado num precioso livro de 260 páginas, com prefácio de Juca Kfouri. São valiosas informações ali contidas, mostrando em detalhes como o futebol esconde diferentes formas de crimes.

Ricardo Teixeira não gostou de ver o esquema da CBF tornado público e foi á Justiça, argumentando que o relatório não havia sido aprovado e, assim, o livro não tinha valor.  O juiz de plantão acatou o argumento. 2 x 0 para a cartolagem, apesar de o relatório ter sido produzido a partir de documentos oficiais, obtidos pela quebra de sigilos fiscais e bancários da Confederação Brasileira de Futebol, federações e vários clubes.

Passa o tempo

Durante a CPI, o lobista da CBF, Vandenbergue Sobreira Machado atuou com desenvoltura junto á bancada da bola. Experiente nos bastidores da atividade parlamentar ele foi de grande importância para sufocar o relatório final.

Ironias do destino, Vandenbergue e Aldo Rebelo voltam a se encontrar agora, 13 anos depois daquele episódio. Porém, como parceiros, na mesma mesa, pacífica e democrática que o esporte sabe reservar.

Em ato ministerial, Aldo Rebelo nomeou Vandenbergue como suplente da representação da CBF no Conselho Nacional do Esporte, cujo titular é o presidente da Federação Brasiliense de Futebol, Jozafá Dantas do Nascimento.

Tudo em paz.

 


Jennings denuncia compra de votos na eleição dos Jogos Rio 2016
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José Cruz

Vem aí mais uma publicação do escocês Andrew Jennings, o jornalista investigativo autor de “Os senhores dos anéis” –  poder, dinheiro e drogas no movimento olímpico”,  e “Jogo Sujo – os bastidores d Fifa”.

Agora, em “Ormetà, o jogo cada vez mais sujo”, da Panda Books e com prefácio do deputado Romário, Jennings levanta suspeitas sobre a compra de votos que levaram o Rio de Janeiro a se tornar sede dos Jogos de 2016.  Ele usou a expressão “ormeta” em referência ao código de silêncio da máfia, justamente o que os jornalista enfrentam nas investigações sobre o submundo olímpico, silêncio total.

Andrew Jennings foi pioneiro na investigação de documentos que comprovaram corrupção na Fifa, culminando com a queda de Ricardo Teixeira da CBF e o pedido de demissão de João Havelange da cúpula do Comitê Olímpico Internacional, para fugir de processo de expulsão.

O Rio ganhou a sede olímpica em outubro de 2009. “Havelange sabia o preço de todos os membros do COI que votariam na escolha”, disse o autor, afirmando que o brasileiro esteve envolvido com o esporte por 46 anos e “atuado por décadas” ao lado de Jean Marie Weber, apontado pela Justiça suíça como membro do esquema de corrupção na Fifa. Havelange e Weber estavam na assembleia do COI, quando o Rio de Janeiro foi escolhido sede olímpica. E é a relação desses senhores com os votantes que Jennings conta em detalhes no seu novo livro.

Conheça o site de Andrew Jennings:

http://www.transparencyinsport.org/


O drama de Laís e o apelo ao ministro Aldo Rebelo
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José Cruz

A deputada federal Mara Gabrilli fez um emocionante apelo ao ministro do Esporte, Aldo Rebelo, ontem, na Comissão de Esporte, em favor da atleta Laís Souza, e exibiu a fragilidade da legislação esportiva, a Lei Pelé, em particular.

Laís, 26 anos,  se acidentou em janeiro, quando treinava em Salt Lake City (EUA) para os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi (Rússia). Laís sofreu lesão entre a terceira e a quarta vértebras, afetando a medula e deixando a atleta sem movimentos do pescoço para baixo.

“O tratamento de Laís está sendo pago pelo COB e pela Confederação de Desportos na Neve. Não há o que reclamar. Mas até quando? E depois? Quem vai olhar por essa atleta que representava o Brasil?  A família dela é humilde, não tem condições de enfrentar despesas tão grandes” –  disse a deputada Gabrilli, pedindo providências ao ministro.

Tetraplégica, a deputada Mara Gabrilli fala com autoridade. Ela conhece muito bem as dificuldades de quem precisa de cadeira de rodas para se locomover.

A lei

A Lei Pelé (nº 9.615/98) trata em seu artigo 45 sobre a “obrigatoriedade de seguro de vida e de acidentes pessoais para os atletas profissionais, com o objetivo de cobrir os riscos a que eles estão sujeitos”.

Porém, escondido no final da lei, no artigo 94 – “Disposições Transitórias” –  diz que o tal artigo 45, entre outros, “será obrigatório exclusivamente para atletas e entidades de prática profissional da modalidade futebol”.  Laís, ex-ginasta, é atleta da Confederação Brasileira de Desportos na Neve.

O Comitê Olímpico Brasileiro garante seguro aos atletas inscritos em competições internacionais oficiais. No caso, Laís estava “pré-convocada”, sem seguro, portanto. Mas o COB, através de notas oficiais –  e depoimentos da família confirmam – , diz que o tratamento da atleta está coberto por duas apólices.

O problema, em geral, continua, pois está na origem, na forma discriminada de tratamento dos atletas, independentemente de convocações.

A Lei Pelé passou por várias atualizações no Congresso Nacional, a última em 2011, e nunca as excelências se preocuparam em dar a todos os atletas e esportes o mesmo tratamento dispensado ao futebol, como se somente esses estivessem sujeitos a acidentes.


A Copa e o jeitinho brasileiro como marca nacional
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José Cruz

Por Alexandre Guimarães

Consultor Legislativo do Senado Federal, especialista nas áreas de esporte e turismo

Afirma-se que a Copa do Mundo deixa em cada País-sede um legado à sua imagem: por exemplo, exalta-se o fim das rivalidades históricas entre coreanos e japoneses, a nova visão sobre os alemães unidos numa rica república, ou a África do Sul multiética que venceu o mal do apartheid. Qual o legado que o Brasil deixará após esta Copa?

A dois meses da Copa, muito do que se prometeu ou não foi realizado ou está para ser concluído. Não há como negar, o “jeitinho brasileiro” será a marca de nosso povo para o mundo.

Nenhuma pessoa séria duvidou da realização da Copa em 2014. Acreditava-se (e o tempo confirmou) que não seria feita como prometida pela CBF e pelos políticos entusiastas de plantão. Promessas, prazos, preços, tudo mudou com o tempo.

Aqui cabe uma lembrança histórica: desde 17 de março de 2004 sabíamos que a sede seria aqui, quando a Conmebol anunciou, após votação unânime das dez associações membros, que o Brasil era candidato único. Houve dez anos de antecedência para preparar o País. Mesmo se contando como data oficial a ratificação da Fifa, houve quase sete anos até a realização do evento.

O que se viu desde início foi a total falta de planejamento. Apresentram-se  18 possíveis cidades-sedes na “Proposta de Candidatura”, número excessivo para a pretensão da Fifa que planejava ter de oito a dez cidades-sede, no máximo.

Lendo o “Relatório de Inspeção da Candidatura do Brasil para a Copa do Mundo FIFA 2014”, de 30 de outubro de 2007, observa-se, também, subestimação do custo e equívoco quanto à fonte de financiamento para a reforma ou construção dos estádios. Na opinião dos inspetores, nenhum dos estádios no Brasil seria adequado a realizar partidas do evento. Segundo o modelo brasileiro proposto seria dada “prioridade ao financiamento privado na construção e reforma dos estádios por meio de concessões e eventuais parcerias público-privadas (PPP)”. Além disso, aCBF estimava os investimentos relacionados à construção e/ou reforma de estádios em US$ 1,1 bilhão.

Poucos foram os estados que optaram pelas parcerias público-privadas (PPP) para seus estádios: Bahia, Ceará, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Mesmo assim, com um total de financiamentos por bancos públicos de R$ 2,651 bilhões (mais de US$ 1,2 bilhão, com US$ 1 = R$ 2,20), segundo dados do Portal de Transparência da Controladoria-Geral da União (CGU).

Nada avançou quanto às obras de infraestrutura, de 2007 a 2010, com a desculpa da incerteza sobre quais seriam as cidades-sede. No entanto, para algumas cidades com tradição esportiva ou para a capital federal, a escolha era óbvia. Não há como justificar que oito delas (Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo) não avançassem os projetos básicos e executivos das obras de mobilidade urbana de extrema relevância, assim como de seus estádios. Essa situação era viabilizada pela pressão da Presidência da República e da CBF para que a Fifa escolhesse 12 sedes, o que ocorreu em 31 de maio de 2009. Os anos eleitorais de 2010 e 2012 também reduziram ou pararam de vez o ritmo de várias obras, em especial as de mobilidade urbana.

Em 2011, governo contestaria a Nota Técnica “Aeroportos no Brasil: investimentos recentes, perspectivas e preocupações”, do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), que afirmava, entre outras coisas, que nove dos treze aeroportos não teriam obras concluídas até a Copa do Mundo FIFA 2014. Hoje, mesmo com a concessão de alguns aeroportos, são as obras que serão concluídas.

Apesar da promessa de que várias obras de mobilidade urbana e de estádios estivessem concluídas no prazo inicial de dezembro de 2012, apenas dois estádios cumpriram seus prazos: o Mineirão, em Belo Horizonte, e o Castelão, em Fortaleza.

Se o objetivo da Copa das Confederações FIFA 2013 era o de ser um evento-teste no Brasil, ele não foi alcançado. De todas as obras previstas, somente uma de mobilidade urbana estava concluída no ano e a tempo do evento: a construção do corredor de ônibus do Boulevard Arrudas/Tereza Cristina, em Belo Horizonte.

Mas não é ser pessimistas, como muitos querem rotular: trata-se da dificuldade de ser um técnico e trabalhar apenas com dados reais e não conjeturas. Por isso, apesar de muitos aspectos negativos terem sido ressaltados, não há porque descrer que o evento ocorrerá com êxito, pois é do caráter do povo brasileiro realizar, com os recursos disponíveis, tudo da melhor forma possível, mesmo que de improviso – o famoso “jeitinho brasileiro”.


Fifa: a ditadura que persiste
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José Cruz

“Ainda hoje, o mundo está dominado por uma série de regimes totalitários. E nem todos são militares. Vejam a Fifa, se não fosse uma ditadura, os jogadores não seriam tratados como coisas, mas como pessoas de respeito”

Em Brasília, para a 2ª Bienal do Livro e da Literatura, o escritor uruguaio Eduardo Galeano falou sobre “Futebol e Ditadura na América Latina”, um dos temas que ele domina há anos.

Uma amiga apaixonada por esporte e literatura me chamou atenção para a crônica “O fim da partida”,  de Eduardo Galeano, em seu livro “Futebol ao sol e à sombra”. Um dos parágrafos sintetiza o fascínio, o poder e a poesia que o autor analisa no jogo da bola:

Uma jornalista perguntou à teóloga alemã Dorothee Sölle:

- Como a senhora explicaria a um menino o que é a felicidade?

- Não explicaria – respondeu. – Daria uma bola para que jogasse.

“O futebol profissional – continua Galeano – faz todo o possível para castrar essa energia de felicidade, mas ela sobrevive apesar de todos os pesares.  … Por mais que os tecnocratas o programem até o mínimo detalhe, por muito que os poderosos o manipulem, o futebol continua querendo ser a arte do imprevisto. Onde menos se espera salta o impossível, o anão dá uma lição ao gigante, e o negro mirrado e cambaio faz de bobo o atleta esculpido na Grécia”.

Nas manifestações do autor uruguaio fica claro que o futebol é uma paixão poética sem igual, mas, sob o domínio de poderosos, tornou-se negócio valorizado onde imperam a corrupção e a influência política. Tal como na preparação da Copa no Brasil,  e a eterna ditadura dos cartolas, em todos os campos do esporte, que agem à vontade, sem oposição.

“Futebol ao sol e á sombra”, boa leitura para entender o que tudo isso significa.

 

 


O pensamento do Ministro
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José Cruz

      Democraticamente, e  para que os leitores  possam debater sobre a Copa no Brasil também com base nas opiniões favoráveis, aí está artigo do ministro do Esporte, Aldo Rebelo publicado ontem, 12 de março, no jornal Diário de São Paulo

Marqueteiros do fracasso

A cáustica campanha de inspiração político-partidária que desvirtua a Copa para minar o governo tenta, mas não consegue tapar o sol com a peneira. A Copa é boa para o Brasil, entusiasma torcedores de todo o mundo, gera negócios capilarizados na sociedade e constrói um legado de benefícios para uso cotidiano da população. Parodiando a música de Capiba, a Copa é madeira que cupim não rói – não o cupim ideológico atiçado para prejudicar um megaevento esportivo disputado pelos países desenvolvidos. Se aqui não é tratado por alguns com a dimensão colossal que encerra é porque os adversários do governo torcem contra a bola para terem sucesso na urna.

Na parte que lhe toca, o Governo Federal não esconde nem disfarça os problemas pertinentes a uma empreitada dessa magnitude. Nem poderia sequer tentar fazê-lo, pois a Copa e obras associadas a ela, que não se esgotam no curto período do torneio, têm sido escrutinadas com lentes de aumento que exageram os problemas. As previsões são sempre catastróficas e fora da realidade. Chegou-se a dizer que o Maracanã só ficaria pronto em 2038, mas o estádio foi reinaugurado 25 anos antes do prazo surrealista, e deslumbrou o mundo na Copa das Confederações em junho de 2013.

O sucesso desse torneio, realizado em seis das doze cidades-sedes, demonstrou que se as coisas não saem perfeitas muito menos configuram o desastre apregoado pelos fracassomaníacos. Aos que dizem que o Mundial da Fifa trará prejuízos, um estudo da Fipe acaba de revelar que a Copa das Confederações gerou um movimento de R$ 20,7 bilhões na economia.

Um turbilhão de fatores em curso mostra que a Copa é fator de progresso e bem-estar – em todos os campos, inclusive na possibilidade de ganharmos o hexa por jogar em casa. Mas esta é a cartada final dos marqueteiros do fracasso: torcer pela derrota da Seleção brasileira em pleno Maracanã – de preferência contra a Argentina.

 


Um chute olímpico no traseiro
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José Cruz

Depois da Fifa, são os olímpicos que dão um chute no traseiro dos brasileiros.

O presidente do Comitê Olímpico Internacional, Thomas Bach, nomeou um interventor para tentar recuperar o atraso nas obras para os Jogos Rio 2016.

Elegantemente, como requer o protocolo olímpico, Bach mandou o recado.  Algo como, “vão trabalhar, vagabundos!”

A medida extrema, que expõe o Brasil a mais um vexame internacional, reflete a estupidez de o governo ter se aventurado na candidatura de eventos tão gigantescos como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. Claro que somos capazes desses desafios. E deles poderíamos tirar lições e legados valiosos. Mas estamos lidando, antes de tudo, com políticos e empreiteiros, parceiros de históricos episódios de corrupção, cujo caminho da malandragem para ganhar muito já conhecemos.

O atraso nas obras é uma dessas estratégias mais manjadas. O Pan 2007 é o triste exemplo neste sentido. É a lamentável “obra-prima” do desmando da gestão pública-esportiva, fartamente documentado pelos auditores do Tribunal de Contas da União. Mas, tais testemunhos, foram solenemente ignorados pelo ex-ministro Marcos Vilaça, autor do relatório final, que fechou os olhos à corrupção escancarada, isentando os envolvidos. Estava assinado o convite para a festa sem controle dos próximos megaeventos.

Quando o presidente do Comitê Olímpico Internacional diz que “faremos o possível para que os Jogos sejam bem-sucedidos” é porque a situação está feia.

O que espanta é o silêncio do Ministério do Esporte e, pior, a omissão do Conselho Nacional do Esporte diante dessa realidade. Assim como a falta de planejamento para o Pan, não se sabe qual o grande projeto para a pós-Olimpíada. O que fazer com as estruturas?  Como foram aproveitadas as instalações dos Jogos Rio 2007? Como a comunidade usou aqueles espaços? Como a juventude – escolar, principalmente –  se beneficiou de projetos esportivos de longo prazo? Qual o envolvimento das escolas na proposta dos Jogo? e das Universidades? Temos isso? Não temos nem agência antidoping credenciada!!!

Há poucos meses, Brasília recebeu os Jogos Escolares Mundiais. E daí? Quantas escolas e quantos estudantes da cidade se envolveram no evento? Que lições ficaram para construir uma capital esportiva? Nada!

A preocupação é com o concreto, com o edifício, com o ginásio, com a instalação física, com a compra de equipamentos. Mas nada se sabe, até porque nada se tem, de construção efetiva para aproveitar os talentos humanos para a prática de diferentes modalidades.  Nesse caso, de irresponsabilidade e omissão dos governos, nosso atraso é bem maior que as obras olímpicas.


A influência da CBF na Comissão do Proforte
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José Cruz

É explícita a influência da CBF na Comissão Especial da Câmara dos Deputados que debate sobre a dívida fiscal de R$ 4 bilhões dos clubes de futebol, o Proforte. Mas o trabalho não é articulado, e predominam os interesses dos deputados na defesa dos clubes de suas regiões.

O destaque é o deputado federal Vicente Cândido, vice-presidente da Federação Paulista de Futebol, íntimo Marco Polo Del Nero, que brevemente assumirá a CBF. Mais “em casa”, impossível. O deputado, que é vice-presidente da Comissão Especial do Proforte, é assessorado pelo lobista da CBF em Brasília, Vandenberg Machado.

Vicente Cândido é o mentor intelectual do projeto de lei do Proforte. Ele sugeria trocar 90% da dívida por serviços que seriam prestados pelos clubes. Uma anistia disfarçada. Mas o relator do projeto, Otavio Leite, do PSDB do Rio de Janeiro, não aceitou essa proposta, e Cândido quer, agora, que 50% da dívida de cada clube vá para um Fundo que deverá ser criado para “formação de atletas”.

Ocorre que esses “atletas” serão garimpados das escolas públicas e clubes sociais onde Cândido quer aplicar o dinheiro. Ou seja, além de o Estado não recuperar o calote da dívida fiscal ainda vai financiar a formação de jogadores para empresários e cartolas ganharem muito dinheiro. É o Estado investindo na iniciativa privada de negócios altamente suspeitos, como lavagem de dinheiro, inclusive.

Já o presidente da Comissão Especial do Proforte, deputado Jovair Arantes, é vice-presidente do Clube Atlético Goianense. No mesmo plenário estava o amigo de Jovair, deputado Valdivino de Oliveira, presidente do Atlético-GO, que se afastou da Comissão.

Prejuízos

Na sessão de quarta-feira, Jovair narrou como seu clube é prejudicado na transação de jogadores, e sugeriu a mudança na legislação (Lei Pelé, n.9615/91), reformulada em 2011 e aprovada pelo próprio Jovair.

Em outra manifestação de evidente interesse clubístico-eleitoral, o deputado Guilherme Campos (PSD/SP), ex-vice-presidente da Ponte Preta, fez uma estranha sugestão para pagar a dívida dos clubes. “Vinte por cento do valor de patrocínio da Caixa aos clubes seriam destinados ao abatimento da dívida fiscal dos clubes”.

Como a Caixa é uma instituição federal, isso significa que o próprio governo pagaria a dívida que não é sua. Ou, em vez de o governo ser ressarcido do calote, ele usaria parte da verba de patrocínio de uma de suas empresas para pagar dívida alheia. Fenomenal!

Finalmente: 

A  Comissão Especial está sem o primeiro vice-presidente, Asdubral Bentes, ex-presidente do Paysandu, de Belém. Há duas semanas Asdubral recebeu ordem de prisão e renunciou ao mandato parlamentar.


Deputados querem novo “fundo” para “salvar” o esporte…
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José Cruz

O projeto de lei para resolver a dívida fiscal de R$ 4 bilhões do futebol (aqui e aqui) é mais um remendo na já esfarrapada legislação esportiva brasileira. Prevê, inacreditavelmente, a criação de um “Fundo Nacional para a Iniciação Esportiva”. Ou seja, mais dinheiro público nas mãos de espertos gestores.

As excelências, que hoje vão discutir a frágil proposta do deputado Otávio Leite (PSDB/RJ), desconhecem quantos milhões de reais o esporte recebe de verbas públicas anualmente, nas mãos de dezenas de gestores, a maioria irresponsável, entre eles o próprio Ministério do Esporte.

Só no último ciclo olímpico (2008 a 2012) o governo injetou R$ 6 bilhões de reais no esporte de alto rendimento.

Detalhe:

30%  desse dinheiro vai para “administração”, aí incluído o salário da cartolagem esperta, cujo valor do que recebem é “segredo”….

Mais:

As excelências querem criar um Fundo de Iniciação do Esporte, quando o Comitê Olímpico Brasileiro, que realiza os Jogos Escolares, tem um “fundo olímpico” para emergências. Mas não se questiona sobre isso.

Mais de R$ 130 milhões para “iniciação esportiva” estão há dois anos parados na Confederação Brasileira de Clubes, devido à burocracia imposta pelo próprio Estado.

Milhões de reais de dinheiro público se perdem em comprovada corrupção no esporte, cujo carro-chefe foi o Pan 2007. Esqueceram? Instalações esportivas foram destruídas e o principal estádio, o Engenhão, está em reformas em plena Copa do Mundo…  Passamos pelo vexame de perder o credenciamento para a realização de exames antidoping, mas somos um país olímpico!

Não adianta dinheiro e mais dinheiro. Não temos estrutura nas escolas nem fora delas, não tempos professores qualificados para essa empreitada. Iniciação esportiva não se faz apenas com recursos financeiros, pois o recurso humano também é fundamental. Temos isso?

Mas tudo passa ao largo da Comissão Especial da Dívida Fiscal, conhecida por Proforte, que prefere discutir sobre a criação de mais um fundo que, quem sabe, será fundo de campanha eleitoral. E a criação de mais uma “loteria exclusiva” – sem que se discuta sobre o quanto o esporte já é beneficiado pela Caixa Econômica.

Pior:

O projeto substitutivo de Otavio Leite prevê que os recursos da nova loteria terão, também, verbas do Imposto de Renda, através de deduções, como já ocorre com a Lei de Incentivo ao Esporte. E que resultados efetivos a lei de Incentivo ofereceu em sete anos de desmandos e projetos suspeitos de corrupção?

E o governo, que precisa de dinheiro diante da evidente falência de seu caixa, sabe que as excelências querem reduzir mais a arrecadação da Receita Federal a pretexto de “incentivar a iniciação esportiva”?

O projeto substitutivo em questão falha, ainda, em não indicar quem será o gestor dessa “nova grana”. prefeitos? governadores? cartolas? E é assim que se resolva o gravíssimo problema da falta de uma política de esportes, injetando-se mais dinheiro, sem destino garantindo e, por isso, solto no já viciado rumo da corrupção pública.

Por tudo isso, é oportuna a entrevista do professor Lamartine Pereira da Costa ao “Esporte Essencial”. Trata-se de um especialista em gestão do esporte, que um dia criou com sua equipe os hoje falidos Jogos Escolares Brasileiros.

E que cada um tire as conclusões do buraco onde o esporte está metido.